A ideia de fazer um filme sobre chamamé surgiu de uma vontade que eu sempre tive de voltar às minhas origens. Sempre me deixa um pouco nostálgico morar em outro estado (Santa Catarina) e ter crescido no Mato Grosso do Sul, com raízes pantaneiras. Vivo com a lembrança e a saudade daquelas tardes infinitas na Fazenda Santa Cruz, quando o sol esticava nosso tamanho em sombras enormes.  

A música, na minha família, sempre foi um ingrediente fundamental para educação e lazer, e essas tardes eram sempre regadas a diversos estilos musicais. Discos de vinil rodavam na vitrolinha Crown de minha mãe - aquelas portáteis que são uma maletinha - e também muita música ao vivo era tocada quando peões, patrões e amigos se juntavam em volta de um violão, uma sanfona (acordeon, bandoneon, pé-de-bode, oito baixos ou qualquer outro nome que se queira dar) para tocar, rir, contar mentiras e invenções e confraternizar.

O chamamé sempre foi um dos estilos tocados nessas reuniões - se não o mais tocado - e era pra mim uma música tão intrínseca ao Pantanal que quando descobri que na verdade havia sido criada na Argentina fiquei muito surpreso - pra mim aquela música "era" o Pantanal. Só mais tarde pude entender que apesar de ter sido criado em Corrientes (Arg), o ritmo do chamamé é um produto não só de um lugar, mas também de um estilo de viver e de pensar. Apesar de ali surgir na primeira metade do século XX,  não demoraria muito para essa música conquistar fãs por toda a região da Bacia do Prata e do Aquífero Guarani, afinal de contas o estilo de viver e de pensar do homem de toda essa região é muito homogêneo. Corrientes é Argentina, mas é também Brasil, Paraguai, Uruguai, Bolívia e Chile. Um país só, maior, orgulhoso de suas raízes Guarani. E o chamamé, enquanto fruto desse país, é uma música que é ao mesmo tempo simples - como o estilo de vida do chamameceiro e o lugar onde vivem - e muito sofisticada utilizando instrumentos europeus e uma estrutura polirítmica.

A história dessa música e das pessoas que a criaram, assim como dos que mantém viva a tradição, é a história que estamos buscando nesse documentário.

Aqui vão alguns vídeos para quem quiser conhecer um pouco mais sobre o chamamé:

Mario del Transito Cocomarola, "El Taita del Chamamé" tocando "Kilometro 11", a música que é conhecida como "O Hino do Chamamé. O video é um trecho do filme "Argentiníssima" de Fernando Ayala e Héctor Oliveira de 1972.

Uma bela entrevista/programa de TV do Dominguinhos com Dino Rocha, um dos ícones do do Chamamé do Mato Grosso do Sul: 

E por último o video que foi a maior inspiração para o filme, que é meu saudoso pai tocando o chamamé "La Carreta Campesina" de Mauricio Cardozo Ocampo numa dessas gostosas tardes pantaneiras que citei:

(Na foto de capa deste post, Antonio Tarrago Rós, clicado por Will Martins durante nossa entrevista em Corrientes. Em Janeiro de 2014).

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