Quebrando a Casca (parte 1)

Desdobramentos sobre o processo do longa Nem Caroço Nem Casca, por Will Martins.

 

Quando fui chamado pra dirigir "Nem Caroço Nem Casca", tudo o que vinha na cabeça era uma pixação que vi em alguma rua da cidade de São Paulo em 2012: um ponto dentro do círculo escrito "Zona de Conforto" e um ponto fora do círculo escrito “Onde a Magia Acontece”.

Eu imaginava que meu primeiro longa seria de ficção (algo que vim determinado desde a época em que saí da faculdade), mas o documentário sempre cruzou meu caminho e eu nunca disse "não". O tema proposto era "Quilombolas" e o local de filmagem era o Maranhão. Embarquei nessa com medo. Na verdade, apavorado! Eu, catarinense que nunca havia pisado no Maranhão, falando sobre negros no nordeste do Brasil. O que poderiam pensar? Por que eu seria o cara certo pra isso? “Onde a Magia acontece” - lembrei. Então fui.

A ONG Me Ensina, a Glóbulo e a Elecnor (coprodução, produção associada e patrocínio, respectivamente) me permitiram toda a liberdade possível na criação do universo do documentário. Escrevi um pré-roteiro, fizemos algumas reuniões, conheci minha equipe. Tudo muito rápido. Com passagens compradas, fomos para São Luís, capital maranhense. A bordo de duas caminhonetes 4x4, partimos em direção a Viana, onde ficaríamos hospedados. Foram 4 ou 5 horas de estrada de chão (ou mais, contando as vezes em que nos perdemos). Eu lembro de ter olhado a paisagem pela janela da pousada às 21h: esgoto a céu aberto, urubus, galinhas sendo vendidas vivas de ponta-cabeça em mercados de esquina, carros de campanha política com o som no talo. De novo pensei: Por que fui fazer esse filme? A minha questão não era onde eu estava ou as condições em volta, mas, sim, minha capacidade de falar sobre este tema. Era uma realidade muito diferente da minha (já tive contato com várias etnias e cidades interioranas do Brasil quando produzia documentários pra TV e Institucionais pro Governo Federal), mas agora era uma obra minha, da nossa produtora. Era cinema. No entanto, todo o meu medo e indecisão logo passariam.

Fotos Still por Gustavo Camarão Bordallo, diretor de fotografia do filme.

Pegamos a estrada que liga as 6 comunidades retratadas no filme no outro dia pela manhã, na companhia de Raoni Rhor, responsável pela pesquisa do documentário, que passou a me apresentar todas as comunidades que ele achava interessante para o filme. Me surpreendi com a forma que ele lidava com aquelas pessoas, como confiavam nele e como abriam um sorriso enorme ao vê-lo. E isso logo se transferiu pra mim.

A química com as comunidades do filme aconteceu de forma orgânica. Lembro de ter rido com a Sandra, personagem do filme, no momento que a conheci chupando laranja na cozinha. Ou quando a Aléxia, filha de 7 meses de Carmem, estava tomando banho no quintal numa banheira de plástico. Ou quando o Carneiro, saindo do banho, me deu um “Oi” matinal cotidiano, como se eu morasse em sua casa. O bom-humor e o amor são as ferramentas do filme. Eu queria saber mais sobre aquelas pessoas e elas queriam saber mais sobre mim, como uma troca. Conforme avançava a estrada, me deparei com tantos outros possíveis personagens. Deixei de lado meu medo e ativei minha curiosidade. Era um mundo novo, doce e duro, que se abria a minha frente. A questão era agora o desdobramento: qual filme eu estava fazendo?

Equipe de Filmagem na Comunidade de Mocambo.

A verdade é que eu tinha medo de fazer um filme chato. Acho que muito dos filmes etnográficos que são lançados todos os anos, aos montes, possuem um deslumbre do cotidiano alheio e um esgotamento do mesmo tema no mesmo formato. Já foram feitos dezenas de filmes sobre quilombos e, infelizmente, a maioria cai no senso comum: zumbi dos palmares, a dança do boi de mamão, festa de São Gonçalo, a vida dura das quebradeiras de côco e etc. O meu ponto de partida foi fazer um filme que eu gostaria de assistir, mas mantendo coisas inerentes ao tema. A melhor maneira, ao meu ver, de encontrar a cultura de um povo, é ouvir o que eles têm a dizer. Ali reside o sotaque, a cultura, os problemas, a educação, os sonhos. Marcia Paraiso, diretora de documentários que tive a oportunidade de trabalhar lado a lado por 3 anos, me deu o caminho: “mantenha seus olhos, ouvidos e veias abertas”. A cada comunidade eu conhecia dezenas de histórias incríveis e possíveis desdobramentos de uma realidade quilombola. Agora eu precisava voltar pra Floripa e ver tudo aquilo que eu tinha registrado, em primeira instância, sem foco de tema. Qual daquelas pessoas seriam meus personagens? Seria um filme segmentado? O que ligavam aqueles personagens? Seria o passado de escravidão, a origem negra ou simplesmente a estrada?

Voltei pra Floripa com o material da primeira viagem em mãos. Só a partir deste reconhecimento prévio é que pude descobrir aos poucos o filme que eu estava fazendo. Ao lado da Novelo e de parceiros do filme (Nina Kopko e Alessandro Danielli, assistente de montagem e montador do filme, respectivamente) fui descobrindo nuances das pessoas entrevistadas e de situações recorrentes nas comunidades que até então eu não tinha percebido. Os temas possíveis foram brotando. Então fui focando nas histórias e resolvi abordar o quilombola não pelo seu lado histórico, mas pelo lado humano. É um filme sobre pessoas, sobre luta, sobre resistência, mas com base no cotidiano, falando sobre valores que também são meus: amor, família, amigos, vizinhos, religião, sonhos e luta.

Missa organizada em Mocambo por Severa Mendes, personagem do filme.

Com o roteiro completamente reformulado, voltamos para o Maranhão focados. Já sabia quais personagens iriam ser entrevistados, qual deles criariam o contraponto, e principalmente, a minha inserção no filme. Um tema que parecia tão distante começou a fazer parte de mim. Posso dizer que foi a partir deste momento que começou meu trabalho como diretor. Foi assim que resolvi colocar o espectador dentro da experiência que eu vivia. O filme começa no centro de Viana (primeiro lugar que cheguei) e termina com a estrada que possibilita tantas outras histórias, trabalhando o filme em segmentos, recortes do que eu vi e queria falar. Trabalhar o indivíduo (o micro) para traçar um panorama da situação atual quilombola no Maranhão (o macro). Mas a estrada continua e muitas outras histórias ainda estão ligadas por esse caminho. Saí pelas ruas do centro de Viana com a minha equipe. A pergunta: O que é quilombola? Poucas pessoas sabiam a resposta. O interessante é que há 2 km daquele lugar já tínhamos o primeiro quilombo. No entanto, todo aquele centro é uma área de quilombo e poucas pessoas sabiam responder. A resposta que eu buscava daquelas pessoas era: quilombolas são as pessoas que moram no quilombo, comunidades criadas por escravos que fugiam do senhor de engenho e encontravam um espaço de recomeço e resistência. Mas a estrada reservava para mim uma resposta muito mais interessante do que essa, previamente escrita em livros e falada da boca de estudiosos.

“Se nós fôssemos descendentes de escravos nós ainda estávamos sendo escravos. Mas nós somos descendentes de negros” - disse Henoc, personagem da comunidade de Santo Inácio. Isso abriu minha cabeça para milhares de questionamentos. Eu não sabia ao certo (como disse, somente o que os livros me diziam) o que são os quilombolas. Há um passado prévio que sobrepõe a escravidão: a cultura dos negros trazida da África para o Brasil. Isso justifica a nossa multiculturalidade e o nosso estado laico. Justifica esse Brasil que foi levantado por mão de obra escrava, a capoeira, a macumba, entre tantas outras coisas. O tema estava ao meu redor em qualquer lugar do Brasil.

Ao total, foi um pouco mais de um mês em terras maranhenses, conhecendo histórias e pessoas. Foi o suficiente para eu sair apaixonado pelos meus personagens, pelo tema e pelo filme. Voltei com a certeza de ter um material incrível em mãos, tanto em conteúdo quanto em imagem.

Da experiência, levo tudo. Lembro das discussões intermináveis do tema com o meu companheiro de quarto e assistente de direção Gui Neves, que me ajudou nestas histórias e com certeza ajudará em tantas outras. Minhas queridas produtoras de campo, Manu Scarpa e Joana Grechi Krás, que discorriam sobre a realização pessoal de fazer cinema pela primeira vez. Já sinto falta do Gustavo Camarão Bordallo e Eduardo Brantes (diretor de fotografia e câmera, respectivamente) pela amizade e o processo que criamos. Enquadrar, desenquadrar, câmera na mão, highspeed, timelapse. A paixão deles pela fotografia e pelo registro adicionou tempero ao tema e sensibilidade as imagens, já que rapidamente se tornaram meus olhos. Era sempre engraçado quando ouvia “barulhos da roça, take 1” vindo de longe. Lá estava Bruno Frene, técnico de som, em cima de uma pedra, embaixo de um coqueiro de babaçu, gravando com seu microfone. Essa equipe, com profissionais que nunca tinham trabalhado juntos, descobriu a melhor forma de me ajudar a contar àquela história.

Joana Grechi Krás, Manu Scarpa, Will Martins e Gui Neves voltando do Maranhão.

O processo de finalização de um longa documental não é brincadeira: decupagem de entrevistas, decupagem de imagens de cobertura, montagem, remontagem, primeiro corte ao nono corte, edição de som, mixagem, correção de cor, criação da identidade visual, trilha musical, créditos. Fiquei meses perdido no dia da semana ao lado do montador: foram finais de semana, noites intermináveis e milhares de versões. Fomos editando comunidade por comunidade, seguindo a ordem da estrada. A cada abertura do projeto estávamos lá, eu e ele, imersos novamente no Maranhão. Lembro dos meus desenhos do mapa, da explicação de cada personagem e das conversas sem fim com o Alê.

Editando o "Caroço"

O desapego é uma das coisas mais difíceis que tive que lidar. Pela minha proximidade com os personagens e por já estar inserido dentro do tema, era difícil cortar um olhar, um gesto, uma fala bem humorada ou algo específico que somente quem estava lá vivendo aquilo, com aquelas pessoas, iria entender. O Alê, como não participou do processo de produção, montava algumas situações que eu pedia e sentia um discurso solto. Foi ele o responsável por me ajudar a contar a história. Nós sabíamos o que cada comunidade ia nos apresentar, mas tínhamos dezenas de possibilidades de contar a mesma história e principalmente, torná-la entendível para quem assistisse todas aquelas pessoas pela primeira vez. Aos poucos me adaptei ao Alê e ele se adaptou ao meu estilo. É visível na edição do filme os momentos que mostram tudo aquilo que eu fiz anteriormente como diretor, principalmente minha linguagem de videoclipe e o meu trabalho com roteiros; assim como também é o Alê. Muita gente perguntou, como se fosse óbvio, se eu iria montar meu próprio filme. Minha resposta sempre foi não. Nunca pensei em estar só na ilha de edição e este filme foi a prova disso. Gosto de montadores que saibam contar histórias, que me mostrem outros lados daquilo que eu não vejo por estar tão dentro. É estender a possibilidade fílmica, é (re)entender e (re)construir tudo aquilo já pré-concebido. Foram 3-4 meses de montagem, sem freio, viajando por aquela estrada. Decoramos todas as falas dos personagens, os momentos de transição e os trejeitos. Acho que até meu sotaque ficou um pouco maranhense.

Luiz Gayotto, responsável pela trilha musical do filme.

Desde o início, o primeiro nome que me veio a cabeça para integrar a equipe foi o de Luiz Gayotto. Gayotto tem uma sonoridade brazuca que vai do baião ao eletrônico, do forró ao blues. Abusa das percussões vocais e dos ritmos brasileiros como ninguém. Sem dúvida um dos grandes artistas nacionais atualmente, na minha opinião. A Carol Gesser, produtora executiva e sócia da Novelo, foi a primeira a comprar a idéia. A primeira conversa ao telefone foi incrível: Gayotto é daqueles caras talentosos, sensíveis e com um coração gigante. A possibilidade de fazer este filme o deixou muito feliz e ele logo tomou aquilo como seu. Conversámos bastante sobre a concepção de cada comunidade e como seria demarcado alguns momentos pontuais. Essa é a parte linda da trilha musical. A pontuação de um sorriso do personagem com um acorde, o sussurro em percussão em uma frase forte, o som de violino baixinho se misturando com o vento; tudo para alcançar uma emoção do espectador. A trilha, com certeza, é a parte mais manipuladora dos sentimentos do público. A nossa idéia foi criar uma trilha com elementos urbanos utilizando instrumentos e musicalidade de todo o Brasil. Era adicionar um baixo e contrabaixo sobre um batuque ou um violino arranhando com balafón (sim, aprendi o nome de instrumentos que sequer sabia que existiam!). Foi um processo delicioso e revelador. Ao lado de Alfredo Bello, produtor, Gayotto criou - praticamente - uma única partitura para todo o filme, só que tocado de maneiras diferentes. Foi uma ótima ideia a partir da concepção fílmica: todas as comunidades estavam ligadas pela estrada, e a trilha seguiu esse conceito. Cada comunidade tem seu instrumento tema, e conforme avançamos o caminho, a partitura é tocada pelo instrumento que representa aquela comunidade. Ao final, todos os instrumentos/comunidades criam a música tema, completando a partitura inacabada.

Terminado o corte, a trilha, iniciamos o processo de correção de cor e edição de som. É muito estranho adentrar nesta fase da pós-produção porque com ela vem uma única certeza: não há mais como mexer na montagem do filme. Depois da difícil certeza de um corte definitivo, o processo de pós torna-se uma fase cosmética maravilhosa. O filme com a cor marcada ganha cara de cinema, revela as texturas, e a auto-estima do material vai lá em cima (ou a minha). Que filme lindo eu tinha na mão! As imagens já estavam tão cravadas na minha retina que, ao ver novamente com outra roupagem, dá um orgulho absurdo. Por isso é tão mágico fazer cinema.

Depois de ter visto o documentário finalizado mais de oitenta vezes (e o número só sobe!), respirei fundo e encarei a pré-estreia oficial do filme, na lendária sala do Cine Odeon Petrobrás, no Rio. Mas esse é um assunto além da casca: é quando alcançamos o caroço da questão.