Curso "Artesãos De Imagem": Conversa com Dicezar Leandro

Uma das atividades da Novelo é a realização de encontros, oficinas e palestras voltados para a área do cinema e do audiovisual em geral. Desta vez, resolvemos realizar, em parceria com o pessoal do Vilaj Coworking, um minicurso sobre direção de arte para cinema e audiovisual. O nome do curso é "Artesãos de Imagem" e o ministrante é o nosso parceiro Dicezar Leandro, que assina a direção de arte de dois curtas aqui da casa, que eu dirigi: O Tempo Que Leva e O Segredo da Família Urso. Inclusive, escrevi aqui no blog sobre alguns elementos da direção de arte nesses dois filmes. 

Para apresentar o Dicezar, tive a ideia de fazer uma entrevista com ele, bem rapidinha, pra que ele pudesse explicar mais sobre sua trajetória no cinema e a função do diretor de arte. Segue.

/// Textos no blog sobre aspectos da direção de arte nos curtas: 
O Tempo Que Leva
O Segredo da Família Urso 

/// A data do curso é 23 e 24 de Novembro e você pode encontrar mais informações na página da inscrição, no site do Vilaj. 

 

CÍNTIA: Você poderia falar sobre a função do diretor de arte em uma obra cinematográfica, assim como os desdobramentos de seu departamento? 

DICEZAR: Um diretor de arte em cinematografia é, como diz, Clóvis Bueno (primeiro profissional a assinar esse título no Brasil) um "especialista em generalidades". Temos que entender do universo arquitetônico, do design, das indumentárias, da pintura, da maquiagem, dos objetos, entre tantas outras, bem como das questões mais humanísticas, comportamentais e de todas as artes. Primeiramente, estamos num processo de contar uma história, de construir uma narrativa visual coerente e que dê potência à linguagem cinematográfica de uma obra em questão. Num segundo momento, nossa criação é toda material, pois, a partir desse pensamento dramatúrgico,  temos que construir as caracterizações dos ambientes e dos personagens, além dos efeitos. Todas essas questões são traduzidas por escolhas materiais, como roupas, tintas, papéis de parede, móveis... Para lidar com essas ecolhas materiais, também temos que lidar com costumização, construção, confecção, ou seja, uma série de técnicas que beneficiam as matérias. Isso envolve, quase sempre, uma grande equipe composta por pessoas com perfis complementares. Como cada obra tem suas peculiaridades - e é comum nos depararmos sempre com um novo desafio, coisas que nunca vimos, ouvimos ou tenhamos trabalhado antes -, estaremos sempre em busca de novas soluções e de composições de equipe que atendam ao perfil da obra a ser construída. Quando falo sobre o especialista em generalidades, é isso: um profissional que necessita um vasto e diversificado campo de conhecimento e que nunca para de aprender, tanto o diretor de arte, como todos que fazem parte deste departamento.        

CÍNTIADesde quando você trabalha como diretor de arte e o que o motivou a seguir carreira nessa área? 

DICEZAR: Durante a faculdade, tive uma amiga de classe que me influenciou a seguir o caminho da direção de arte. Ela era mais velha e uma pessoa inspiradora, Sandra Cardoso, e eu admirava demais seu trabalho e sua criatividade. A convivência com ela me motivou a fazer essa escolha. Trabalhei muitos anos no universo da publicidade, desde de 1995, mas sempre tive a vontade de trabalhar com cinema e dramaturgia. No entanto, em Santa Catarina a produção era quase inexistente nessa época e até 2007 pouco se ouvia falar em produção cinematográfica por aqui. Foi nessa época que resolvi sair do país e ter uma experiência internacional. Quando retornei, decidi viver em São Paulo e trabalhar com o que eu queria de verdade. Minha primeira decisão foi fazer um curso de roteiro, e para isso escolhi a mestra Eliane Café, que logo depois do curso me colocou à frente da direção de arte da série "O Louco dos Viadutos" veiculada pela TV Cultura. Então, desde 2008, venho desenvolvendo trabalhos nessa área e tive a grande oportunidade de passar por produções profissionais e com diretores de destaque. Outra pessoa muito importante na minha história foi a diretora de arte Monica Palazzo, que é uma parceira. Além de ter aberto muitas portas, temos caminhado juntos em algumas produções, e também no ambiente de ensino e na difusão do conhecimento desta área. A Eliane Cafe e a Monica Palazzo foram, sem dúvida, pessoas extremamente importantes na minha trajetória.

CÍNTIA: Como é o seu processo criativo dentro de uma produção cinematográfica? Você costuma utilizar outros filmes como referência? Outras formas de arte? 

DICEZAR: O processo de produção cinematográfica é passivo de muitas variáveis, ao mesmo tempo que cada filme possui peculiaridades, como já disse. A relação com novas equipes e novas formas de trabalhar é inevitável e é necessário que estejamos sempre dispostos a nos adaptarmos às exigências do projeto e ao olhar do outro. Acredito que a maturidade profissional nessa área vem com a questão de percebemos o processo cinematográfico de maneira geral, e não só as questões pertinentes ao departamento de arte. Quanto mais antevemos os movimentos dos outros departamentos, mais estamos preparados para reagir nos aspectos técnicos, artísticos, criativos e gerenciais. Mas, voltando à questão criativa, acho que o pensamento por trás das escolhas estéticas tem que abandonar totalmente uma visão decorativa e se apegar à linguagem cinematográfica. Acho importante, acima de tudo, o diretor de arte de cinema entender que ele está construindo um espaço de beleza adequado a um filme, que nem sempre vai ao encontro dos padrões de beleza vigentes na sociedade. Essa compreensão passa pelo entendimento da proposta de direção, bem como da ampliação e extração de tudo que pode estar implícito num roteiro. A dramaturgia e a linguagem cinematográfica em questão vão orientar para as muitas especificidades desse processo, mas em geral, ao meu ver,  são as várias leituras do roteiro que vão gerar escopo e métodos de pesquisa para  busca de referências e construção de uma proposta conceitual. E o mais importante é que nesse processo a troca de informação com a direção, a fotografia, o próprio departamento de arte, bem como toda a equipe em geral, é de extrema importância, pois além de garantir a unidade de pensamento sobre a obra, oxigena as ideias sobre os caminhos que vamos seguir para a elaboração da mesma. Nesse sentido, vale tudo: filmes, poesias, literatura, música, artes plásticas, fotografia e, principalmente, a nossa vida e a dos outros. Tudo é interessante e pode ser inspiração para potencializar a construção da narrativa visual de uma obra cinematográfica. 

CÍNTIA: O nome do curso que você ministrará em Florianópolis, sobre direção de arte, é "Artesãos de Imagem". Por que a escolha desse nome? 

DICEZAR: Bem, isso tem a ver com coisas que já respondi nas perguntas anteriores, mas de certa forma também complementa. A parte criativa da direção de arte se inicia ao fazermos inúmeras especulações sobre o universo que o roteiro apresenta. A partir de algumas leituras surgirão propostas de visualidades à história a ser contada, por meio da proposição de cores, texturas, formas, estilos, enfim, informações visuais que irão se configurar em climas, ambientes, objetos, caracterizações de personagens, bem como possíveis efeitos. Contudo, nosso primeiro passo como criativos é constituir nuances à narrativa, não necessariamente contidas de maneira explícita no roteiro, como artesãos ao confeccionar as partes de uma obra antes de elas se encaixarem, necessintado, nesta ordem, de estudos, teste de possibilidades e precisão no resultado; pois é essencial que as partes se acomodem na montagem. Logo, num primeiro momento é fundamental fazer movimentos para enxergar além do que o roteiro inicialmente lhe oferece. Essa etapa do trabalho confere profundidade aos caminhos criativos da direção de arte e conduz a elaboração da atmosfera das imagens, que serão registradas efetivamente durante as filmagens. Neste sentido, nossa missão primordial é fazer estar contido nessas imagens o que não está necessariamente contido no texto, mas, sim, no universo dos personagens que se apresentam ao longo dele. Enfim, o universo da direção de arte, mesmo quando inserido na indústria do cinema, com todas as suas evoluções digitais e tecnológicas, ainda conta com muitos processos artesanais na construção de elementos singularmente construídos para uma filmagem. Desta forma, meteforicamente, os artesãos das imagens trazem, em sua visão criativa, a lapidação de ideias como base para seu processo de pesquisa, definição e execução de projetos conceituais para que, ao mirar no espaço da originalidade tangível também possa acertar, no ápice de sua criação, o inusitado sensível, algo único e singular, abandonando as tendências dos pensamentos industriais, globais e pasteurizados. Acho que nossa profissão exige a sensibilidade de um artesão, que na confecção de uma peça, cada escolha de material ou de técnica empregada, um entalhe, uma forma de colar algo que aconteça de forma diferente, trará àquela obra detalhes completamente ímpares.    

CÍNTIA: Quem pode se inscrever no curso? Há algum público-alvo pré-determinado ou algum pré-requisito? 

DICEZAR: Não há restrição e não há pré-requisito. É um curso introdutório, mas com uma carga de informação muito extensa. O perfil de um aluno mais avançado só o fará aproveitar melhor as informações. Pois quanto mais experiência ele tiver, maior será a troca e mais efetivo e promissor o seu aprendizado. Mas isso não restringe que cada qual tenha um aproveitamento diferenciado do curso, pois ele é tido por mim como um curso introdutório, não por ser básico, mas por focar em questões referente ao início do processo de direção de arte. Do roteiro ao projeto conceitual, eu busco delimitar as abordagens ao espaço criativo, visto em constantes evoluções, onde a poética da imagem ganha forma e, principalmente, sentido. Essa é uma etapa imprescindível do processo de direção de arte em cinema e comumente relegada pelos espaços de produção no Brasil, pois é nessa etapa criativa que é proporcionado um caminho de reflexões ao profissional à frente do departamento de arte. Reflexões responsáveis pela formação de atmosferas coerentes à conotação da história preterida; que, numa esfera moral, política e filosófica, garantam a fuga do estado da beleza como algo meramente decorativo.

CÍNTIA: Na sua opinião, qual a relevância da realização desse curso em Florianópolis? 

DICEZAR: Pessoalmente, é proporcionar oportunidades que, quando eu vivia aqui, tive que buscar fora. É me comprometer com o desenvolvimento do fazer cinematográfico no estado em que eu nasci. E por mais pessoal que isso seja, vem ao encontro da ideia de fomentar memória, cultura e cidadania através da forma de expressão com a qual sempre me identifiquei. Seja no estado que eu nasci, seja mundo afora. Mas, sem dúvida, quero assistir o cinema catarinense se desenvolver cada vez mais e estou feliz de ter feito escolhas que me permitem ajudar para que isso venha efetivamente acontecer. 

Cíntia Domit BittarComment