A história do curta "O Segredo da Família Urso" se passa nos anos 1970 e faz referência à ditadura militar brasileira, com elementos de suspense e horror, a partir do ponto de vista de Georgia, uma menina de oito anos. Dito isto, vamos para o que foi o maior trabalho de direção de arte já realizado na Novelo Filmes, se formos pensar em nível de dificuldade e no antes e depois. 

A primeira questão era encontrar a casa onde se desenvolve a trama. Mesmo sendo apenas uma locação, os ambientes da casa seriam muito explorados dentro do filme e precisávamos de uma arquitetura bem específica, de preferência com escada, um longo corredor e uma porta menor que as outras. Isso, no que diz respeito à narrativa, pois se falarmos das questões de produção, ainda teremos itens como localização, acessibilidade, custos, etc. Vale mencionar que não era possível construir esse cenário em estúdio, pois não cabia em nosso orçamento. E que, claro, se não encontrássemos a casa de jeito nenhum, eu e o Will (Will Martins, roteirista e assistente de direção - e novelo) mexeríamos no roteiro, com a intenção de adequar as ideias à realidade. 

A produção pesquisou casas em Florianópolis, mas não havia nada com os pré-requisitos. Acionamos o Marcelo Sabiá (que estudou conosco no curso de cinema da Unisul) para fazer uma busca no interior, já que estava morando em Urubici. Alguns dias depois ele nos apresentou algumas opções, das quais filtramos três por meio de fotos e pesquisa. 

E lá fomos nós para Lages, região serrana de Santa Catarina, a 2h40min de Floripa. Nessa primeira visita fomos eu, Carol Gesser (novelo, produtora executiva), Dicezar Leandro (diretor de arte), Marx Vamerlatti (diretor de fotografia) e Gustavo de Souza (som direto). Encontramos o Sabiá e ele nos guiou até as casas. Essa parte é uma das mais estranhas para mim, como diretora, dentro de uma produção. Porque é preciso pegar aquela história que está toda contadinha dentro da cabeça, dentro daqueles espaços imaginados, e fazer o exercício pesado de inserir essa mesma narrativa nesses espaços estranhos e novos. Às vezes dá um nó! Para a minha facilidade (não felicidade) eu acabei criando algo como um mecanismo de defesa: procuro nunca colocar detalhes muito específicos no roteiro ou na minha imaginação, tento me ater ao que é essencialmente imprescindível para o andar da narrativa. 

Depois de muito exercício de imaginação acabamos escolhendo a casa que tinha uma escada, um corredor longo e uma porta menor que as outras. Confesso que cheguei a pensar que isso nunca seria possível, que teríamos que construir essa porta. Só não escolhemos essa casa logo de cara porque precisávamos sentar e avaliar toda a intervenção que a mesma receberia e o custo disso tudo. Isso porque ninguém mais morava naquela casa havia tempo, as paredes eram brancas e apáticas, os móveis da cozinha não seriam aproveitados, além de termos que tirar o fogão a lenha dali, etc, etc. Mas a dona da propriedade era um amor de pessoa e foi muito solícita. Nos avisou que poderíamos fazer o que quiséssemos, até derrubar alguma parede, caso fosse necessário, pois, provavelmente, a casa iria para a demolição. Em outras palavras, não precisaríamos desproduzir nada além dos objetos! Porque sempre existe a preocupação de entregar a locação do mesmo jeito que recebemos, mas não nesse caso. Estava decidido! Mesmo tendo que deslocar toda a equipe para outra cidade, mesmo a direção de arte tendo que realizar um "Extreme Makeover" na casa, não encontraríamos melhor lugar a tempo. 

Antes dos detalhes, vou dar os nomes. Apresento a equipe de direção de arte: Dicezar Leandro (diretor de arte, cenógrafo e produtor de arte), Daniela Aldrovandi (cenógrafa), Cecília Castiñera (produção de arte), Vinícius Todeschini (assistente de produção de arte local), Vanessa Rosa Gasparelo (produção de objetos), Joana Grechi Krás (produção de objetos), Everton "Choco" Nunes (cenotecnia), Jonatan Gentil (contraregragem). Do César Martins (figurino) e da Carolina Pires Campos (maquiagem) vou falar depois, em outro post. 

Bom, o diálogo com o Dicezar começou com uma exposição das minhas referências estéticas e narrativas. Separei imagens e vídeos dos filmes A Profecia (1976, dir. Richard Donner), O Bebê de Rosemary (1968, dir. Roman Polanski), O Exorcista (1973, dir. William Friedkin), O Iluminado (1980, dir.Stanley Kubrick). Também referências de produções atuais cuja história se passa nos anos 1960/1970, como a série Mad Men, da AMC. A partir dessa seleção fomos traçando a personalidade estética do nosso curta e chegamos a uma paleta de cores que guiaria todo o departamento de arte, assim como o departamento de fotografia.  

A paleta de cores do filme: tons pastéis e referência aos anos 1970 e, principalmente, aos filmes daquela época. 

A paleta de cores do filme: tons pastéis e referência aos anos 1970 e, principalmente, aos filmes daquela época. 

Na direção de arte a gente buscou trabalhar com cores que flertavam com sensações acromáticas. Não trabalhamos só com o preto, branco e cinza (originalmente acromáticos); e sim com verdes, ocres, vinhos, azuis, rosas e amarelos. Todas essa cores sem vibração e intensidade. Buscamos um filme opaco; escolhas em busca de uma atmosfera que potencializasse a proposta dramatúrgica.
— Dicezar Leando, diretor de arte.

Elaborado o conceito, é hora de ir para as soluções práticas. Na segunda vez que fomos a Lages, estávamos eu, Will (assistente de direção), Dicezar e Carol. Foi quando eu e o Will fizemos o exercício de adaptar o roteiro para a locação que tínhamos, já que o deslocamento dos personagens dentro da casa era algo essencial para contar aquela história. Foi nesse dia que aproveitamos para fazer um photo board dos enquadramentos que já sabíamos que faríamos e criamos outras possibilidades decupando o filme ali, in loco. Pois estávamos com pouco tempo e a equipe de arte, principalmente, precisava saber o que apareceria em quadro ou não. Foi nesse dia, também, que resolvemos incluir o piano (que veio junto com a casa) no roteiro. Ora, é sempre uma trinca arrumar um piano pra filmar. Se já tínhamos um ali, por que não? Eis que o piano praticamente protagoniza duas das cenas mais tensas do filme. Por essa e outras é fundamental, quando se trabalha em locações reais, estar aberto a o que ela pode oferecer. 

O piano estava lá, na dele, esquecido. 

O piano estava lá, na dele, esquecido. 

Frame de uma das cenas que acontecem em torno do piano. Aqui, já com a cor corrigida pelo Alan. Nesse momento, Geórgia (Liz Comerlatto) é surpreendida pela mãe (Gilda Nomacce), em cena.  

Frame de uma das cenas que acontecem em torno do piano. Aqui, já com a cor corrigida pelo Alan. Nesse momento, Geórgia (Liz Comerlatto) é surpreendida pela mãe (Gilda Nomacce), em cena.  

Eu com parte da equipe de arte (Dicezar, Dani e Jonatan), conferindo a cena no set.

Eu com parte da equipe de arte (Dicezar, Dani e Jonatan), conferindo a cena no set.

E agora, o que é mais legal de se ver, uma sequência de montagens com o antes e o depois. As fotos do "antes" são das visitas às locações; as do "depois" são frames do filme, já com a correção de cor feita pelo Alan Porciuncula. 

O tom mais escuro na porta, batentes e parede do corredor contribuíram muito para o recorte que eu queria, dentro do enquadramento. A louça do banheiro, o piso, o espelho e os azulejos foram mantidos. A arte entrou com um rosa envelhecido na parede, acompanhado de uma faixa cor de-vinho. 

O tom mais escuro na porta, batentes e parede do corredor contribuíram muito para o recorte que eu queria, dentro do enquadramento. A louça do banheiro, o piso, o espelho e os azulejos foram mantidos. A arte entrou com um rosa envelhecido na parede, acompanhado de uma faixa cor de-vinho. 

Aqui podemos ver as várias intervenções da equipe de arte, desde as cores nas paredes, a transformação na lareira, a posição do piano e todo o dressing com móveis e decoração. 

Aqui podemos ver as várias intervenções da equipe de arte, desde as cores nas paredes, a transformação na lareira, a posição do piano e todo o dressing com móveis e decoração. 

As novas cores provocaram um clima mais soturno. Essa imagem é quase o ponto final de um plano sequência, que mostra a protagonista caminhando pelo corredor e descendo as escadas. Desde o início eu sabia que esse era um dos enquadramentos necessários para o filme, no qual eu aproveitei as "grades" do corrimão para fazer uma relação imagética subjetiva ao sentimento de aprisionamento da menina, dentro da casa. 

As novas cores provocaram um clima mais soturno. Essa imagem é quase o ponto final de um plano sequência, que mostra a protagonista caminhando pelo corredor e descendo as escadas. Desde o início eu sabia que esse era um dos enquadramentos necessários para o filme, no qual eu aproveitei as "grades" do corrimão para fazer uma relação imagética subjetiva ao sentimento de aprisionamento da menina, dentro da casa. 

Mesmo considerando a diferença entre as lentes, dá pra ter uma ideia da transformação da cozinha. Os batentes e portas foram pintados de marrom escuro, foi colocada uma porta lá no fundo, o fogão a lenha foi removido, os azulejos foram decorados com adesivos em vinil, a parte de cima da parede foi pintada em um tom capuccino, enfim... até o interruptor foi substituído. Ah, na primeira imagem temos o Dicezar, a Carol e o Will, simulando a posição dos atores para o estudo do enquadramento. Eu falei que nunca ia postar foto alguma desses momentos, mas precisei aqui. :). Na cena do filme, temos os atores Otto Jr., Gilda Nomacce e Liz Comerlatto, de costas. 

Mesmo considerando a diferença entre as lentes, dá pra ter uma ideia da transformação da cozinha. Os batentes e portas foram pintados de marrom escuro, foi colocada uma porta lá no fundo, o fogão a lenha foi removido, os azulejos foram decorados com adesivos em vinil, a parte de cima da parede foi pintada em um tom capuccino, enfim... até o interruptor foi substituído. Ah, na primeira imagem temos o Dicezar, a Carol e o Will, simulando a posição dos atores para o estudo do enquadramento. Eu falei que nunca ia postar foto alguma desses momentos, mas precisei aqui. :). Na cena do filme, temos os atores Otto Jr., Gilda Nomacce e Liz Comerlatto, de costas. 

Aqui, um outro pedaço da cozinha, mostrando com mais detalhe a transformação dos azulejos, das paredes e armários, ainda que o ângulo não seja o mesmo.

Aqui, um outro pedaço da cozinha, mostrando com mais detalhe a transformação dos azulejos, das paredes e armários, ainda que o ângulo não seja o mesmo.

Aqui é o porão da casa. Não posso dar mais detalhes pra não gerar spoiler e acabar com o curta que já dura pouco... :) Nessa parte do porão, a ideia é que fosse um lugar onde coisas velhas ou de pouco uso se acumulassem. O chão era lindo e foi mantido. 

Aqui é o porão da casa. Não posso dar mais detalhes pra não gerar spoiler e acabar com o curta que já dura pouco... :) Nessa parte do porão, a ideia é que fosse um lugar onde coisas velhas ou de pouco uso se acumulassem. O chão era lindo e foi mantido. 

Aqui é a parte externa da casa. Não conseguimos entrar com pintura nas paredes por causa do tempo hábil e do clima úmido. Mas as cores na grade da porta quebrou o branco quase hospitalar de antes. Compraram grama para fazer o jardim e podaram as plantas em volta. 

Aqui é a parte externa da casa. Não conseguimos entrar com pintura nas paredes por causa do tempo hábil e do clima úmido. Mas as cores na grade da porta quebrou o branco quase hospitalar de antes. Compraram grama para fazer o jardim e podaram as plantas em volta. 

Esse plano caiu no corte final, por isso está sem a cor corrigida. Mas é o melhor enquadramento para poder mostrar a intervenção da direção de arte nesse ângulo da sala. O armário sob a escada foi aproveitado, sem algumas portas e com objetos.

Esse plano caiu no corte final, por isso está sem a cor corrigida. Mas é o melhor enquadramento para poder mostrar a intervenção da direção de arte nesse ângulo da sala. O armário sob a escada foi aproveitado, sem algumas portas e com objetos.

A imagem à esquerda é a sala da frente, como a recebemos. Foi ali, próximo à janela, que montamos a sala de jantar da família. 

A imagem à esquerda é a sala da frente, como a recebemos. Foi ali, próximo à janela, que montamos a sala de jantar da família. 

Aqui temos a área da porta com mais detalhes. 

Aqui temos a área da porta com mais detalhes. 

Na primeira imagem, temos o quarto sem intervenção alguma. Na segunda, o papel de parede já foi aplicado e os batentes, rodapé e janela pintados de marrom. Esse é o quarto da protagonista. 

Na primeira imagem, temos o quarto sem intervenção alguma. Na segunda, o papel de parede já foi aplicado e os batentes, rodapé e janela pintados de marrom. Esse é o quarto da protagonista. 

O resultado que mais me surpreendeu durante as captações foi os das cenas no quarto, sem dúvida penso que o quarto funcionou muito mais pro filme do que pra “vida”, ou melhor, a princípio esse cenário não tinha me deixado muito satisfeito, mas o enquadramento valorizou muito a ambientação que fizemos e achei que a arte cresceu e de certa forma acabou me surpreendendo.
— Dicezar

A locação do quarto também agradou muito o diretor de fotografia, Marx Vamerlatti. Então, para encerrar, vou colocar alguns frames aqui, de todos os ângulos das cenas. Espero, em breve, postar o vídeo do making of dessa produção e, também, textos sobre os outros aspectos da direção de arte e outros departamentos. 

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