Uma costura de ideias, de sensações, de imagens. Até mesmo de fragmentos de personagens. O que eu sabia, há cerca de uns oito anos atrás, é que eu queria contar uma história na qual o calor fosse insuportável, as relações fossem líquidas e os aparelhos elétricos parassem de funcionar - e também tinha uma imagem de milhares de animais marinhos encalhados na costa que não parava de me assombrar. Dessa vontade (cabe ler aqui "O Ato de Criação", de Gilles Deleuze) foram surgindo - precisa ser no gerúndio, mesmo - ramificações de ideias, que chegavam em "forma" de cor, textura e sensações.  O título do filme veio com o final da escritura do primeiro tratamento do roteiro. É um título roubado de outro projeto aqui da Novelo, sobre congestionamento no trânsito: "O Tempo Que Leva". Para quem ainda não assistiu, o filme conta a história de Jamila (Mayana Neiva), que, mesmo com a iminência do fim do mundo, sai de casa com um objetivo: consertar seu ventilador. Nesse caminho ela conversa com as poucas pessoas que sobraram na cidade deserta, pois as pessoas estão fugindo para o interior. Passa pelo bar e lanchonete dos excêntricos Alberto (Henrique César) e Vera (Amélia Bittencourt), e também pela oficina de Marcos (Ivo Müller), a quem recorre para consertar o aparelho. Tem a página do filme no site, mas vou republicar o trailer aqui também. 

Considero a direção, a direção de fotografia e a direção de arte como o tripé imagético do filme, e o alinhamento entre esses departamentos é determinante para o resultado que vai para a tela. E é fundamental que caminhem juntos desde as leituras de roteiro até a pós-produção, com a correção de cor e finalização. 

Tive o prazer de trabalhar novamente com o Marx Vamerlatti na direção de fotografia. Nos conhecemos desde a época da faculdade, quando o Marx, já formado e trabalhando em outras produções, fotografou meu vídeo de conclusão de curso. Desde então, nos tornamos bons amigos e trabalhamos em outros filmes juntos, principalmente comigo na montagem. Mas foi neste que fizemos a parceria direção e fotografia. 

Neste filme eu quis ousar mais fotograficamente do que em "Qual Queijo Você Quer?" e, um dos maiores desafios, foi proporcionar o movimento adequado às sensações provocadas pelo filme. Queria essa câmera movendo-se como uma brisa pelo calor e incertezas dos personagens. Pedi para o Marx que escrevesse algo para este texto, falando um pouco sobre isso. 

Sempre procuro por desafios na realização de um projeto. E a Cíntia apresentou um para a direção de fotografia de “O Tempo Que Leva”: todos os planos seriam feitos com steadicam. Sendo assim, a construção da luz foi pensada para uma câmera sempre em movimento. Esta instabilidade dialoga diretamente com a trajetória dos personagens.
— Marx Vamerlatti - Diretor de Fotografia
Em cena, o ator Henrique César. Chico (Francisco Orlandi Neto) operando o steadicam e Ivanzinho (Ivan Duarte) acertando o foco. Still pelo novelo Lucas de Barros. 

Em cena, o ator Henrique César. Chico (Francisco Orlandi Neto) operando o steadicam e Ivanzinho (Ivan Duarte) acertando o foco. Still pelo novelo Lucas de Barros. 

Optamos por rodar o filme com a Canon 5D Mark III por três motivos: custo, peso e praticidade. O filme foi realizado de maneira totalmente independente, sem prêmios de edital ou captação de recursos. Foi pago com prêmios em dinheiro que o "Qual Queijo..." ganhou em festivais, com product placement e com diversos apoios técnicos e culturais, além das parcerias de empresas e profissionais envolvidos, que se associaram à produção. Apenas na cena final utilizamos uma Red Epic, para rodar a 300 fps (câmera lenta). 

Bom, voltando aos outros aspectos imagéticos. Eu sabia que precisaria de um time forte no departamento de arte. Convidei para o projeto a Monica Palazzo e o Dicezar Leandro, que assinam juntos a direção de arte. Foi meu primeiro filme com os dois e uma experiência de troca maravilhosa. A Monica veio para a pré-produção, já que queria participar, mas não estaria disponível nas datas da gravação. O Dicezar desenvolveu a parte conceitual junto com ela e continuou no set de filmagem. 

Foi super interessante essa divisão de trabalho, agregou ao filme e às pessoas que trabalharam conosco, e para cada um de nós tb. Compartilhar o olhar e o processo de trabalho é uma forma eficiente de agregarmos conhecimento e desenvolver novas estratégias de criação.
— Monica Palazzo, diretora de arte.

A fim de trazer a sensação de um "calor apocalíptico" para a tela, trabalhamos com várias referências de imagem, entre quadrinhos, artes plásticas, fotografia e outros filmes. Chegamos em um conceito para a paleta de cores, que levaria as tonalidades pasteis e olivas para a tela. Na pós-produção, o colorista Alan Porciuncula se ateve a esse conceito e propôs um calor não óbvio, não apenas puxando a imagem para o amarelo, mas também azulando as baixas, resultando em um aspecto muito mais perolado que dourado. 

Prancha com referências da direção de arte. Cores, imagens, sensações que ficavam na parede da Novelo, para visualizarmos durante as reuniões. 

Prancha com referências da direção de arte. Cores, imagens, sensações que ficavam na parede da Novelo, para visualizarmos durante as reuniões. 

Um dos primeiros acordos de equipe foi que o look de pós-produção imprimisse uma certa oleosidade a imagem e que, no resultado, tivéssemos um filme aquecido - um recurso pouco explorado no gênero de filme sobre o fim dos tempos.
— Dicezar Leandro, diretor de arte.

Entre os objetos, o filme teve um deles muito específico, que precisou ser produzido especialmente para nosso uso, o óculos steampunk. São essas coincidências da vida, que acabam enriquecendo o filme. Digo isso porque quando eu escrevia o roteiro eu sabia que o homem da oficina deveria vestir um óculos muito estranho, tipo uma máscara que deixasse seus olhos como os de um inseto. Estava navegando na internet (que anos dois mil essa expressão) e dei de cara com o óculos que eu queria! Foi alguém que compartilhou uma foto de um grupo steampunk e, então, comecei a ler muito sobre o assunto, a participar de foruns e a pesquisar preços no E-bay. Até que a Monica me falou de um aderecista chamado Victor Akkas, que já havia trabalhado com eles em outros momentos. Passei as referências e o Victor, junto com a Daniela Aldrovandi, construíram esse óculos, lá em São Paulo. Foi uma alegria recebê-lo numa caixa de sedex, durante a pré-produção. Eram as linhas do roteiro se tornando realidade, nas minhas mãos.  

Frame do filme com o ator Ivo Müller na cena em que Marcos para o que está fazendo para observar Jamila, que acabara de chegar em sua oficina. 

E o óculos foi parar no cartaz do filme. Na foto, a atriz Mayana Neiva, que interpretou Jamila. A arte do cartaz foi elaborada e executada a três mãos: A designer gráfica Liz Borba, o novelo Will Martins e eu. 

E o óculos foi parar no cartaz do filme. Na foto, a atriz Mayana Neiva, que interpretou Jamila. A arte do cartaz foi elaborada e executada a três mãos: A designer gráfica Liz Borba, o novelo Will Martins e eu. 

E em outras peças gráficas também. 

E em outras peças gráficas também. 

Além do óculos havia mais três objetos que, para mim, eram muito importantes para o filme. A televisão portátil e a pilhas (na minha memória estava uma tv que minha vó tinha), as cadeiras de praia para a cena do terraço (que deveriam estar na paleta de cores e, tb, enferrujadas) e, claro, o ventilador da Jamila. Devo ter passado uns três dias procurando todos os modelos de ventiladores possíveis, até que encontrei um da Ventisilva, estilo retrô. Foi amor à primeira vista. No mesmo dia ligamos para a Ventisilva e aproveitamos para oferecer uma possibilidade de product placement. A empresa gostou muito da ideia e todos saíram felizes. Sobre a televisão e as cadeiras de praia, deu tudo certo, também. Para a produção dos demais objetos e assistência de arte foram chamadas as queridas Cecília Castiñera e Vanessa Gasparelo. Essas meninas reviraram os lixos da cidade atrás de objetos para compor as ruas abandonadas do centro, nas cenas que mostravam esse lado mais apocalíptico. 

Frame da cena em que Jamila sai para tentar consertar seu ventilador. Essa é a Rua dos Ilhéus, centro de Florianópolis. Rua onde fica a sede da Novelo, também. 

Frame da cena em que Jamila sai para tentar consertar seu ventilador. Essa é a Rua dos Ilhéus, centro de Florianópolis. Rua onde fica a sede da Novelo, também. 

A cena da Rua dos Ilhéus, por onde passam as motos, sem dúvida é uma cena que nos deu muito trabalho. Nesse dia todo mundo pegou junto e a coisa aconteceu de maneira bem fluida. Tínhamos cinco quarteirões do centro de Florianópolis interditados para as filmagens, com nenhum carro (que não fosse da produção/cenário) estacionado, com total possibilidade de controle para fazermos nossas escolhas e, enfim, prontos pra gravar.
— Dicezar Leandro

O figurinista César Martins também trabalhou dentro da paleta de cores estabelecida e juntos montamos os figurinos de cada personagem, trazendo um pouco da personalidade de cada um e, por vezes, contando mais do que está no filme, agregando potência ao contexto e às individualidades. O figurino da Vera, por exemplo, fala muito mais sobre a personagem do que qualquer outro elemento imagético. Contruímos um figurino dentro do conceito "velha pin-up", como se na juventude ela fosse da galera do rock e também hippie. A maquiadora, Carolina Pires Campos, desenhou as tatuagens nos braços, com um aspecto envelhecido. Para o personagem do Seu Alberto, roupas e acessórios que remetesse a um dono de bar suburbano misturado com bixeiro. Para Marcos, roupas básicas e inadequadas para aquele clima de calor, deixando o suor mais evidente, e ainda com alguns acessórios steampunk. Jamila, protagonista, vestiria roupas muito leves e um chinelo que roçaria no asfalto, ecoando no silêncio de uma cidade vazia. Optamos por dois vestidos despojados e puídos, que imprimiam movimento durante o caminhar. 

Figurinos em cena, depois de diversos testes e provas. 

Figurinos em cena, depois de diversos testes e provas. 

Sobre a cenografia, posso dizer que tivemos muita sorte com as locações, que merecem um post à parte. Eu gosto muito de andar pelo centro da cidade e me considero bastante observadora. A locação da oficina e também a da lanchonete eu mesma encontrei, no trajeto que fazia de onde morava até a Novelo. A oficina foi realmente um achado e o proprietário nos ajudou muito e foi sempre super solícito, além de o Dicezar e as meninas terem aproveitado muitos dos objetos que lá estavam. A lanchonete também sofreu poucas intervenções, talvez a maior delas tenha sido a aplicação de adesivos de vinil nos azulejos, criando uma faixa cor-de-vinho, a fim de dar uma "quebrada" no branco. O apartamento de Jamila é, na verdade, o apartamento da novelo Maria Augusta, que gentilmente cedeu seu lar pra filmarmos. A equipe de arte entrou com cores e tecidos nas paredes, piso emborrachado no chão, cortinas, roupas de cama, almofadas, etc. O terraço é do Edifício APLUB, onde fica a sede da Novelo.  

Dicezar envelhecendo as paredes do apartamento; o quarto de Jamila sendo preparado; Cecília e Dicezar preparando a parede da sala, com tecido e tinta. 

Dicezar envelhecendo as paredes do apartamento; o quarto de Jamila sendo preparado; Cecília e Dicezar preparando a parede da sala, com tecido e tinta. 

Tecidos e cores para o dressing do quarto da Jamila e depois o frame do filme finalizado. 

Tecidos e cores para o dressing do quarto da Jamila e depois o frame do filme finalizado. 

Eu poderia escrever muito mais sobre os desdobramentos estéticos (e narrativos) a partir da direção de arte e da fotografia deste filme, mas ainda espero postar por aqui o vídeo do making of. Para finalizar, preciso dizer que fiquei muito satisfeita com o resultado final da imagem deste filme. Ela corresponde àquele rascunho que existia há mais de oito anos na minha cabeça. As imagens que criamos juntos em "O Tempo Que Leva" conseguem, na minha opinião, tornar a atmosfera do filme envolvente para o espectador. Conversando com pessoas das quais eu respeito demais a opinião e o senso crítico, que assistiram ao filme, pude perceber que o que permanece é, justamente, a atmosfera: o movimento, as cores, as sensações. A percepção de que há algo de estranho, algo ameaçador, mas que, mesmo assim, a vida continua. Como a vida de Jamila. Como os pássaros no terraço. 

 

Por Cíntia Domit Bittar
Roteirista, diretora, montadora e produtora
do curta-metragem "O Tempo Que Leva"

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